Copan vive disputa interna com avanço do Airbnb e levanta debate sobre futuro dos condomínios residenciais
Transformação do maior edifício residencial do Brasil em polo de hospedagem reacende discussão sobre limites legais e convivência entre moradores.
No coração do Centro de São Paulo, o icônico Edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, vive uma nova fase que tem dividido moradores, proprietários e administradores. Conhecido por suas curvas marcantes e por ser considerado um dos maiores prédios residenciais do país, o edifício tem passado por uma transformação silenciosa: a expansão expressiva de apartamentos voltados para aluguel de curta temporada, principalmente por meio da plataforma Airbnb.
O cenário lembra o funcionamento de um hotel. Nos corredores, circulam turistas com malas, funcionários de limpeza com carrinhos de roupas de cama e hóspedes que entram e saem ao longo do dia. Para alguns moradores antigos, a rotina mudou radicalmente.
“Tem dia que você precisa pedir licença para os hóspedes para conseguir entrar no seu próprio bloco”, relata o morador Alexandre Araújo, que vive no Copan há oito anos e também é comerciante na galeria do térreo.
O número de unidades ofertadas para temporada já coloca o prédio em patamar semelhante ao de hotéis de médio porte. A movimentação constante alterou o perfil da vizinhança e a dinâmica do condomínio.
“Mudou o público, mudou a vizinhança, mudou a quantidade de gente circulando. Antes você sabia quem ia encontrar no elevador, eram seus vizinhos”, completa Araújo.
Segundo dados do IBGE com base no último Censo, o Copan teria cerca de 1.112 moradores fixos. Já a administração do condomínio estima que o número possa chegar a 3.500 pessoas cadastradas, embora nem todas residam ali de forma permanente. O contraste indica um possível esvaziamento da moradia tradicional em favor da ocupação temporária.
O tema, no entanto, está longe de ser pacificado. Especialistas apontam que a atividade ainda opera em um “limbo” jurídico, sustentado por decisões judiciais divergentes e pela ausência de uma legislação nacional específica que regulamente a locação de curta temporada em condomínios residenciais.
O novo síndico do prédio, Guilherme Milani, reconhece que a situação gera tensões. “Há reclamações crônicas e esporádicas. Tem pessoas que suportam bem, outras não”, afirmou. O Copan conta com mais de 110 funcionários entre porteiros, zeladores e equipe de serviços gerais para atender seus seis blocos e 32 andares.
Além do debate interno, a discussão reflete uma realidade que se espalha por áreas turísticas e centrais de grandes cidades brasileiras.
Para o presidente do Instituto Nacional de Condomínios e Cidades Inteligentes (INCC), Paulo Melo, o caso do Copan simboliza um dilema moderno da gestão condominial.
“A locação por temporada é uma realidade irreversível nas grandes cidades, mas ela precisa estar alinhada à convenção do condomínio e ao direito coletivo dos moradores. O prédio é uma propriedade privada coletiva, e o interesse individual não pode se sobrepor à segurança, ao sossego e à finalidade residencial”, afirma Paulo Melo.
Segundo ele, a ausência de uma legislação clara aumenta os conflitos. “Enquanto não houver uma regulamentação objetiva, os condomínios continuarão judicializando essas discussões. O ideal é que cada prédio, por meio de assembleia, defina regras transparentes para garantir equilíbrio entre moradia e exploração econômica”, completa.
Nos corredores do Copan, o futuro ainda é incerto. Parte dos moradores vê na atividade uma valorização imobiliária e oportunidade de renda. Outros temem a descaracterização do edifício como espaço residencial.
O fato é que o colosso de 120 mil metros quadrados, que já foi símbolo da moradia urbana moderna brasileira, agora também se tornou palco de um dos debates mais atuais sobre o uso dos imóveis nas grandes metrópoles: afinal, onde termina o direito de propriedade e começa o direito coletivo à convivência?
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